Saúde: futuro do passado do indicativo — um tempo não verbal

Albert Bacelar
2 min readFeb 5, 2020

As coisas estão mudando tão rápido que acabamos confundindo o presente, passado e futuro. Quando sai uma notícia nova, uma das primeiras impressões é “quando foi?”. A relativa velocidade “einsteiniana” com que o tempo passa e nos traz pensamentos “nunca dantes navegados” é assombrosa.

Os cuidados em saúde, desde Florence, assumem praticamente o mesmo modus operandi, quase nada mudou de lá pra cá nas emergências, enfermarias, clínicas, atendimentos… A saúde ficou como uma idosa centenária da década de 80, com grande sabedoria, mas não tecnológica, não disruptiva e com velhas manias. De lá pra cá, termos na saúde como HealthTech, HackMed, Python, Machine Learning, Inteligência Artificial e programação estão cada vez mais comuns, principalmente nos últimos 5 anos.

Seguindo dados em saúde, consultando um velho amigo da comunidade médica, o pubmed (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/), ao pesquisarmos os termos “Healthcare” e “Artificial Intelligence” aparecem pouco mais de 4.700 artigos indexados. Talvez as mudanças nos últimos 10 anos na saúde foram maiores que o período de Hipócrates a Florence Nightingale.

Empolgado com pacientes graves que sou, quando o Laura para Sepse com o fantástico Jacson Fressato (que não é da área da saúde) surgiu, foi como um soco no estômago. Uma mistura de estupefação, admiração e medo surgiu em mim. A ideia do propósito! Tudo precisa de um propósito. Numa corrida de cavalos, procuramos sempre um puro sangue ou quarto de milha para apostar, mas dessa vez tem mangalargas, um excelente produto nacional, no páreo. Um outsider com propósito! E muitos outros estão surgindo. Propósitos é o que mais temos. Onde tem problema, tem alguém com propósito.

Não só mudanças no tratamento estão ocorrendo, na forma de pensar bayesiana (que é como os médicos pensam) também. Dentro da formação acadêmica surgindo subáreas de finanças, gestão, marketing, economia do cuidado, tecnologia, programação, inovação, entre outras. Paradigma já é uma palavra tão decrépita quanto a idosa centenária da década de 80. A compreensão desses temas dentro da saúde cresce de forma exponencial, outra palavra comum.

Muitos médicos e outros profissionais de saúde que conheço estão deixando o lado poser e arcaico da visão do cuidador. Os mais novos estão deixando o futuro do presente “eu trabalharei com isso um dia”, ou os mais velhos, o futuro do pretérito “eu trabalharia com isso se fosse mais novo”. Estão admitindo e declarando não só o presente “eu trabalho com isso”, mas deixando também o perfeito modo indicativo e revelando um jeito mais gerúndio, que assim como eu, vamos trabalhANDO com “isso”, cuidANDO dos pacientes, aprendENDO, vivENDO e falANDO aqui.

--

--

Albert Bacelar

Health Data, Design Thinking, Critical Care Physician, Care Economy